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terça-feira, 3 de setembro de 2024
Os magos em AD&D2e eram fracos demais?
terça-feira, 20 de agosto de 2024
Sobre o sistema de magias de D&D
Nunca gostei do modo como a magia é tratada em D&D: o mago "memoriza" uma magia e esquece ela logo depois de lançar, que nem um estudante de ensino médio decorando um calhamaço de fatos e definições para uma prova de história/geografia/filosofia e esquecendo tudo tão logo saia da prova.
Na Ilustração: um mago murmurando para si mesmo relembrando os feitiços que decorou para a aventura, durante o caminho até encontrar seu grupo |
Para mim isso nunca fez sentido. Como que, por exemplo, um mago de nível 20 esquece como se lança "Dardos Místicos" mesmo tendo executado esse feitiço em toda a sua carreira de aventureiro ? Um mago nível 1 eu até entendo, mas ainda assim essa questão de "memorizei e esqueci em seguida" sempre achei forçada demais. Chegaria em um ponto em que até um mago de nível 1 seria incapaz de esquecer os poucos feitiços aos quais tem acesso.
Na ilustração: um mago em sua oficina criando mnemônicos para decorar as magias que vai lançar, na madrugada da véspera da aventura! |
Se a explicação fosse que as magias requerem ingredientes e estes são consumidos logo após o uso, seria menos pior, mas ainda assim uma regra de difícil aplicação no jogo (até porque já existe uma regra assim com ingredientes de magia, mas nunca vi ninguém usando, pois muitos dos componentes listados são coisas que exigiriam um certo exagero na descrição dos detalhes de cada cena da aventura pelo mestre e pelo jogador que interpreta o mago).
Mas como melhorar esse sistema?
Na minha humilde opinião, um sistema melhor seria algo próximo ao que se vê em videogames, especialmente rpgs: um sistema de pontos de mana / pontos de magia, em que cada magia tem seu custo, e a quantidade de pontos aumenta conforme o nível do mago. Esse sistema satisfaria também o papel de evitar que o mago seja poderoso demais (por exemplo, não permitindo que tenha magias infinitas), e serviria tanto para magos quanto para clérigos ou druidas (neste texto irei me ater às classes tradicionais e não escreverei sobre bruxos e feiticeiros ou qualquer outra invenção recente)
Só vejo vantagens:
- sabendo o custo de cada magia, o mago decide se vai gastar tudo de uma vez com uma magia bem poderosa, ou gastar com várias magias fracas, ou um meio-termo
- para bloquear o acesso de magos iniciantes a magias mais avançadas, basta fazer com que seus custos sejam mais altos do que o limite de pontos de magia dos personagens de niveis baixos
- alternativamente, pode-se pensar em um sistema que permita magos iniciantes usarem magias avançadas, mas ao custo de pontos de vida, por exemplo, ou pontos de status (constituição, carisma, força, etc). Pode-se pensar até mesmo em magias que tenham tais custos independente da quantidade de pontos de magia do lançador
- possibilita que magos combinem forças (na prática: compartilhem pontos de magia) para juntos lançarem feitiços de nível mais alto
- pode-se criar uma mecânica de recuperação de pontos de magia (descanso, poções, alimentação, visita a "santuários"/"locais de poder", contato com itens mágicos, contato com itens que representem a fé do personagem (especialmente no caso de clérigos), etc.
- se for usar as infames mecânicas do "descanso curto/descanso longo" para recuperar pontos de magia, sugiro que eles sejam recuperados mais lentamente do que os pontos de vida.
O que meus caros 8 leitores pensam a respeito? Seguiam essas regras à risca? Ou facilitavam a vida para os que jogavam de mago?
quinta-feira, 23 de maio de 2024
Goblins não deveriam ser tratados como "minions"
Saudações, aventureiros, taverneiros, ferreiros e demais assemelhados!
Venho mais uma vez varrer a poeira e retirar as teias de aranha desta minha pequena choupana virtual, para entretê-los com mais um post (só para quebrar momentaneamente o silêncio, tendo em vista as obrigações do mundo real que têm me impedido de escrever neste humilde espaço - espero conseguir ter mais presença a partir do segundo semestre...).
São somente mais algumas idéias que eu vinha matutando a respeito da infame quinta edição de D&D e suas correlações com alguns problemas atuais na psique da sociedade. Vamos lá:
Ao menos desde o advento de D&D 5e, os personagens dos jogadores deixaram de ser aventureiros de RPG e tornaram-se super-heróis semideuses desde o nível 1, já iniciando o jogo com poderes e habilidades que nos áureos tempos do hobby demorariam alguns níveis para serem conquistados.
Com isso o RPG (pelo menos o mais famoso e os jogos indies que se inspiram em sua atual edição) passou de um "simulador de sobrevivência" para um "simulador de super-herói".
Imagino que as razões para isso sejam, principalmente, o gosto da geração atual por MMORPGs, nos quais todo personagem possui vários poderes, armas e armaduras incríveis, "toda espada tem um nome", "todo guerreiro nível 1 já possui uma alcunha", e por aí vai, para fins de apelo comercial, e a consequente necessidade de incentivos cada vez mais fortes para receptores de dopamina cada vez menos sensíveis. Precisamos de situações cada vez mais extremas, com cada vez mais adrenalina, para conseguirmos o mesmo nível de excitação, euforia, etc. Assim, no caso dos filmes de terror, por exemplo, as situações foram ficando cada vez mais extremas e violentas, ou então os filmes foram cambando para outros tipos de terror (psicológico, existencial, e os infames body horror, gore, fora outras bizarrices que compõe diversos filmes que foram banidos de alguns países).
Coisas que davam medo antes não causam mais medo por causa dessa adaptação. Pensem no Freddy Krugger, Jason, Chucky o boneco assassino, Samara, e outros personagens similares. Hoje em dia eu considero que seus filmes não são mais "terror", estando mais para um "dark fantasy" - e eu diria que caminham a passos largos para serem eventualmente classificados como filmes de aventura - muito embora a idéia por trás de tais personagens seja assustadora, se pararmos para pensar - seriam criaturas horripilantes de se encontrar na vida real, por mais que hoje seus filmes possam nos parecer "bobos".
Uma consequência disso nos RPG é que muitos dos monstros de "D&D"5e são "minions", e são tratados como meros e quase irrelevantes obstáculos que causam pouco mais que um incômodo para os heróis - em muitos casos, na 5ª edição, os monstros no máximo atrasam os personagens dos jogadores.
Isso aconteceu com um dos tipos mais clássicos de monstros de RPG: os goblins, os quais outrora poderiam representar uma ameaça quando em pequenos bandos enfrentando personagens dos níveis iniciais, hoje em dia são mortos às dúzias com apenas umas poucas espadadas dos homens de armas do grupo..
Mas reflitamos: se existissem na vida real, um goblin não seria um "minion" que é morto às dezenas com um golpe da espada de um guerreiro nível 1, como em "D&D"5e. Um goblin seria um monstro perigoso, pois não seria muito diferente de um ser humano sem restrições morais, e com nível de inteligência suficiente para armar emboscadas, preparar armadilhas, e por aí vai.
(Aliás, no fundo, os goblins (e outros monstros humanóides encontrados nos folclores em geral) provavelmente são metáforas que nossos ancestrais criaram para representar justamente isso: o que acontece com um homem quando perde suas restrições morais, e passa a ser movido somente pelo instinto e visa somente satisfazer suas necessidades)
Um goblin, na vida real, provavelmente usaria ataques furtivos para compensar sua baixa estatura e relativa fraqueza física.
Provavelmente atacaria à noite, quando os personagens estivessem dormindo, ou usariam veneno, ou montariam armadilhas para imobilizá-los, etc. e imagino que só atacariam de frente se estivessem em grande números ou com amplo apoio de outras criaturas mais fortes, como trolls e orcs ou hobgoblins.
Em contos folclóricos de diversas culturas, os goblins ou seus equivalentes (por exemplo, "kobold" é o nome alemão para goblin) figuram como os principais antagonistas. Geralmente são retratados como criaturas sagazes que tentam enganar o protagonista. Em outros são retratados como uma raça subterrânea, nem sempre má, mas amoral ou imoral.
Então fica esta sugestão para os mestres de RPG que se sentem insatisfeitos com a fraqueza atual da maioria dos monstros disponíveis no manual da 5ª edição: façam com que um goblin, ou um pequeno grupo de goblins, volte a ser perigoso como outrora. Não os trate como meros peões autômatos que ficam à toa guardando um tesouro esquecido numa caverna, ou vigiando uma ponte só porque sim, e que estão lá somente para morrerem com um golpe de espada do PC nível 1. Transforme-os em criaturas vis, ardilosas, traiçoeiras, oportunistas e imorais. Uma ideia para um antagonista goblin seria, por exemplo, criar um personagem no estilo do Gollum, de O Senhor dos Anéis - uma criatura esquiva e ardilosa que fica perseguindo o grupo dos personagens dos jogadores, cometendo pequenos atos de sabotagem (roubando itens, azedando a comida, tentando atacar personagens que estejam sozinhos, etc.).
E, para quem se interessa, aqui está um link com um pequeno apanhado de aparições de goblins na literatura:
https://infomory.com/famous/famous-goblin-literature
sábado, 17 de fevereiro de 2024
Breves comentários acerca das miniaturas de WarHammer
Há uma certa sutileza na estética que não é facilmente percebida de forma consciente, mas de certa forma todos nós a apreendemos nas profundezas do subconsciente (ou nos instintos, ou o que quer que isso seja), o que torna um tanto difícil explicar certas coisas com palavras, e temos que recorrer a analogias e metáforas para conseguir explicar determinados conceitos de "difícil" apreensão.
É o que tentarei fazer neste pequeno texto.
Eu acho as miniaturas de WarHammer um tanto estranhas e meio cringe (claro, com honrosas exceções). Elas têm um grau de "exagero fantástico" que passa um pouco da conta, na minha opinião. Alguns dos soldados do Imperium of Men, por exemplo, têm aqueles capacetes que lembram um pouco o Darth Vader:
Para mim, não dá. Simplesmente fica parecendo infantil demais. Talvez war hammer seja mesmo para crianças, ou para adolescentes de até uns 14 anos, mas creio que a maioria do público que efetivamente joga seja formado por adultos (a confirmar, mas creio que sim).
Eu tenho plena consciência de que eu sou chato e exigente quanto à estética das coisas em geral (por exemplo, não sinto nem vontade de sequer começar a ler One Piece, dentre outros motivos, porque acho os designs dos personagens feios demais!), mas ainda assim, creio não ser o único que considera as miniaturas de Warhammer um tanto estranhas (um exemplo ainda pior são as miniaturas do extinto Mage Knight :::: essas eram infantis ao extremo, na minha opinião).
Sou da opinião de que em geral o design das miniaturas de WarHammer é mais adequado para histórias em quadrinhos, e não para miniaturas.
Eu acho que existe um meio adequado para cada tipo de estética.
Por exemplo, eu não consigo imaginar quadros, pinturas a óleo, sendo pintados retratando pessoas de nossa época trajando roupas atuais, principalmente as roupas que são usadas pelo pessoal novo-rico ou "pobre remediado" como sendo símbolo de status. Sem dúvida tais quadros existem (existe "arte" de praticamente tudo), mas ou caem no vale da estranheza, ou caem na "zona cringe". Por exemplo, como exercício mental, tente imaginar uma pintura a óleo de um hipster usando uma camiseta escrito "Tommy Hilfigger" e calçando sapatênis, ou de alguém usando calças jeans rasgadas nos joelhos, moicano pintado de amarelo e uma blusa polo da Lacoste, ou de uma e-girl de cabelo rosa fantasiada de sailor moon. Simplesmente não combina, fica estranho. O único meio que combina com esse tipo de imagem são as web comics, e olhe lá.
As miniaturas de warhammer são claramente feitas no estilo MMORPG, elas lembram personagens de LOL e WOW: personagens feitos com características exageradas, armas gigantes, armaduras impossíveis, todo item é lendário, toda espada tem um nome, e por aí vai. Eu acho que essa estética só combina com jogos de computador e videogame.
E as empresas de miniaturas que estão surgindo hoje em dia, focadas em impressão 3D, estão seguindo essa estética exagerada de MMO, da mesma maneira que os personagens de D&D 5e são na verdade personagens de MMO, conforme já escrevi várias vezes por aqui.
Uma possível explicação para esses fenômenos é que a geração atual mais nova de jogadores teve sua imaginação moldada por WOW e LOL, e se acostumou à estética e aos demais exageros destes jogos. A geração mais antiga dos jogadores de RPG, em contraste, foi formada lendo O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia, Le Mort d'Arthur, lendas arturianas, e diversos outros livros de fantasia. E fora outras referências de outros gêneros literários, como H.P. Lovecraft. O famoso "apêndice N" de D&D dá bons insights sobre o assunto.
Enfim, eu simplesmente prefiro miniaturas mais realistas e mais "pé no chão". Muitos fenômenos sociais se comportam como pêndulos, e no caso dos jogos, o pêndulo foi demais para o lado da High Fantasy. Eu já sou um sintoma do pêndulo começando a voltar para outro lado: estou preferindo cenários de estilo mais Low Fantasy: magias sutis, personagens sendo pessoas comuns ao invés de super-heróis, itens mágicos são raros, etc.
Prefiro miniaturas tipo as da Essex, Ral Partha, dentre outros fabricantes ingleses. Aqui no Brasil, acho que só a Wicca Workshop fabrica e vende miniaturas assim, sem exageros estéticos (embora bem high fantasy em sua maioria). Se eu tivesse uma empresa de miniaturas eu acho que optaria por esse estilo.
domingo, 28 de janeiro de 2024
Sobre Wargames e a valorização da História
Uma coisa que eu observo, principalmente em países anglófonos (especialmente Inglaterra e EUA), é a valorização da própria História e o interesse pela História como um todo, com destaque para o mundo antigo (Grécia e Roma no geral) e medieval (com apelo mais forte para a Europa Central - infelizmente a Europa Ibérica e a Europa Mediterrânea ficam meio que de fora dessa esfera de interesse, e eu tenho uma teoria de que isso ainda é o resquício de uma propaganda estatal anti-ibérica incentivada pelo Reino Unido na época da colonização, tendo em vista que os Impérios Português e Espanhol eram bastante fortes e de certa forma concorrentes dos britânicos na conquista do Novo Mundo).
Esta valorização da história teve como um de seus efeitos colaterais, digamos, mais mundanos, a criação de diversos jogos de guerra baseados em momentos da história e vários até mesmo focados em batalhas específicas.
Por exemplo, creio que as da Guerra dos 100 anos sejam as mais apreciadas, ao que me parece, especialmente as batalhas de Agincourt e Crécy, e outras guerras que aparecem muito em wargames são a Guerra Civil Americana, a Guerra de Independência dos EUA, a Batalha de Falkirk, a Guerra das Rosas, e fora a infinidade de wargames baseados inteiramente nas guerras napoleônicas - aliás, "Napoleônico" é todo um gênero de war game.
(E de certa forma wargames me parece que são uma coisa bem forte na cultura centro-européia, pelo menos desde que os generais prussianos usavam seus Kriegspiel para simular batalhas e pensar em estratégias de guerra... Os Kriegspiel eventualmente deixaram de ser só uma ferramenta de planejemento militar e adentram a esfera dos hobbies, dando origem aos wargames... é bastante interessante pensar que esses Kriegspiel prussianos iniciaram uma bola de neve que, uns 200 anos depois, culminou em D&D e em todos os RPG!)
Falando de nosso país, embora o Brasil seja (graças a Deus!) um país pacífico, tivemos nossa cota de guerras no passado, principalmente no período colonial e no Império.
Talvez pudéssemos valorizar nossa história, (sem ser forçado, claro, pois tudo forçado fica chato), e produzir jogos com base nestas guerras.
(Ou então adotar os jogos baseados nas guerras estrangeiras e jogá-los melhor e com mais paixão do que os estrangeiros)
Mas aqui, infelizmente, somos ensinados a desprezar nosso país e nossa história desde cedo, numa espécie de "viralatização" forçada, então é óbvio que esse tipo de iniciativa receberia pouquíssima atenção e apoio. Seria mais uma coisa de nicho, que nem os RPG no geral.
Mas, mesmo assim, eu fico impressionado em como que lá fora, mesmo RPG e wargame também sendo hobbies de nicho, há inúmeras empresas que vendem miniaturas, por exemplo, e aqui mal temos duas ou três. Lá fora também há diversas editoras de RPG, não só as ligadas a D&D e à WotC, e aqui praticamente só tem uma, ou duas, e nenhuma parece realmente interessada em crescer. Eu sei que nosso governo e nossas leis dificultam muito a atividade empresarial como um todo, mas ao mesmo tempo sinto que nossas empresas não têm ímpeto, não têm vontade de fazer grandes coisas, parece que gostam de ficar na mesma, entendem?
Eu realmente sinto como se o Brasil como um todo, em todas as suas áreas econômicas e em todas as demais áreas relativas à criatividade, fosse um bonsai, cuidadosamente podado para nunca crescer além do vaso que lhe foi designado... (e de certa forma os pobres e a classe média do Brasil também são podados para nunca crescerem...)
Além disso, acho que especificamente no caso dos RPG e wargames pesa um pouco o fato de que não tivemos uma "Idade Média" no Brasil: as nossas guerras seriam classificadas, caso fossem cenários de um war game, como "Coloniais" (no caso das travadas no período das Capitanias Hereditárias), ou digamos, "Napoleônicas" (no caso das guerras do Primeiro e Segundo reinado e da Regência, e talvez as iniciais do período republicano).
Eu particularmente acho que a Idade Média é o período que mais têm apelo no gosto do público jogador em geral, principalmente nos jogadores de RPG, mas dentro dos war games acho que isso fica meio dividido, pois o público que gosta das guerras napoleônicas é bem grande também. E nem sei se "Colonial" é mesmo um gênero de wargame, pode ser apenas uma variante do "Napoleônico", só que mais focado em "guerrilhas" do que em batalhas de grande escala, e com um cenário mais, digamos, tropical.
(Eu pessoalmente prefiro o período medieval, especialmente batalhas que envolvam cercos)
Para criar jogos de guerras medievais para "valorizar nossa cultura" (repito: nunca façamos isso de maneira forçada, porque senão fica chato!), teríamos que ou criar guerras fictícias passadas no Brasil colônia (digamos, imaginar que os portugueses construíram castelos no Brasil e sofreram cercos dos franceses, ou vice-versa) ou nos basear em guerras reais ocorridas no medievo Português e Espanhol, nossos principais antepassados europeus, ou então nas guerras dos reinos Visigóticos, Alanos e Suevos do início da Idade Média, tendo em vista que tais povos são antepassados dos portugueses e espanhóis (e por tabela nossos antepassados também). E também nas guerras do reino de Al-Andaluz, nossos antepassados mouros.
Nós brasileiros somos herdeiros de todas estas tradições, embora frequentemente nos esqueçamos disso.
E se quisermos criar jogos com base em nossas guerras coloniais e do período imperial / república da espada, será necessário estudar de maneira mais aprofundada as batalhas dessas épocas (pois o que geralmente aprendemos na escolinha a respeito destas batalhas é muito en passant e geralmente só decoreba envolvendo os nomes das batalhas e quais eram os lados em conflito, sem nunca aprofundar) - deveríamos estudar os contingentes dos lados beligerantes, os movimentos das batalhas, a geografia dos locais das batalhas e suas influências nos movimentos das tropas, etc. - mas creio que as fontes para este estudo sejam um tanto obscuras. De qualquer maneira maneira, tais guerras combinariam mais com regras para wargames do tipo "napoleônico".
Mas aí voltamos ao problema de que nossa história é ensinada, desde que somos crianças, de tal maneira que crescemos com a noção de que ela é "chata" (por "chata" entendam: sem muito apelo para fazer jogos, romances de aventura, filmes, etc.). Talvez seja mesmo, ou talvez não, eu sinceramente não sei ao certo. Acho que tentamos muito pouco dar uma valorizada nas nossas coisas, e nas poucas vezes que tentamos somos sabotados, tanto por pessoas de dentro quanto por pessoas de fora do país. E muitas vezes essa sabotagem não é nem no sentido de impedir que as coisas sejam feitas, mas sim no de dar uma direção ruim para as coisas (por exemplo, fazer ficar forçado e chato - no sentido usual da palavra chato).
Acho que deveríamos nos esforçar um pouco mais para sair desse marasmo!
Por exemplo, eu acho que a Guerra do Paraguai daria um bom cenário de wargame "Napoleônico", assim como as várias batalhas da nossa guerra de Independência. E talvez poderíamos fazer "versões medievais" de tais guerras, para dar um sabor a mais. Por exemplo, eu no momento estou escrevendo, já há mais de 1 ano, um livro de regras para um wargame medieval e pretendo um dia escrever uma versão medieval (e depois, quem sabe, outra mais realista) da Guerra de Canudos. Eu acho que daria um cenário bem legal para um wargame!
Talvez a história da Inglaterra, da França, etc. sejam bem chatas também, mas eles conseguiram fazer uma "propaganda" boa de suas respectivas histórias, criaram toda aquela mística em torno da figura dos cavaleiros medievais, da Guerra dos 100 anos, das batalhas de Agincourt, Crécy, Tours, Lepanto, etc. Talvez seja só uma questão do modo como as coisas são contadas: os ingleses vivem realçando como seus longbowmen eram fortes e versáteis, e como que o longbow era uma arma difícil de ser dominada, que era "para poucos", etc. e criaram toda uma mística em torno de como os "invencíveis arqueiros ingleses" mudaram o desfecho de várias batalhas da guerra dos cem anos. Os franceses valorizam muito seus paladinos, há muitas histórias e romances de cavalaria escritos há séculos que realçam seus grandes feitos em combate, sua coragem, honra, dentre tantas outras virtudes associadas aos cavaleiros. E tais escritos influenciam toda uma mentalidade, uma imagem que os franceses têm de si próprios, assim como foi feito pelos ingleses.
Por quê aqui não fazemos isso também?
Se fizéssemos o mesmo em relação à nossa história, aos nossos heróis, os grandes guerreiros e capitães de nosso passado talvez aí encontrássemos um tesouro esquecido.
Reflitamos, confraria.