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sábado, 19 de novembro de 2022

Um exercício mental - tentando imaginar a 6ª cor de Magic

Saudações, aventureiros, taverneiros e até mesmo para os NPC!

Inspirado por uma resposta que dei a um dos comentários em meu post anterior, na qual eu comentei a respeito da dificuldade de criar uma 6ª cor para Magic que funcione de maneira satisfatória com o jogo, resolvi escrever este texto como exercício de imaginação: vou tentar imaginar uma 6ª cor para o famoso jogo de cartas.

Antes, porém, é bom avisar que eu só joguei Magic casualmente, nunca fui um jogador fanático, desses que montam decks pensando em combos de cartas, em loops de mana, danos infinitos, etc. Eu só montava decks pensando em quais cartas eu achava legais.... por exemplo, já tive um deck só de dragões, outro só de cavaleiros, e por aí vai, não me importando nem um pouco com a "estratégia vencedora" da época. 

Hoje em dia nem jogo mais (e nem quero). E como escrevi em meu post sobre as ilustrações das cartas de magic, as artes das cartas hoje em dia estão muito "new school" e com cada vez menos alma.

Até já pensei em comprar cartas para colecionar ou até mesmo para especular com seu valor, mas desisti da ideia. Não tenho tempo para me dedicar a isto, e acho que há hobbies muito mais interessantes e proveitosos.

Bem, agora vamos ao post propriamente dito!


Para quem não conhece, Magic é um jogo de cartas onde os jogadores assumem o papel de magos que invocam criaturas e lançam feitiços (representados nas cartas), e retiram sua energia mágica (chamada de "mana") de terrenos (também representados por cartas). Existem cinco cores de cartas, cada uma com seu estilo e mecânica próprios. 

As mecânicas consagradas das 5 cores são estas:


Branco - Magias de proteção e de recuperação de pontos de vida; criaturas pequenas e de baixo custo

Verde - magias de geração de mana; criaturas grandes e caras

Azul - Magias que obrigam o oponente a descartar ou a gastar mais mana; criaturas voadoras

Vermelho - magias de dano direto; criaturas com ímpeto

Preto - Magias que destroem criaturas, sacrifício de pontos de vida para gerar mana; criaturas difíceis de bloquear ou que geram efeitos de destruição e/ou descarte de cartas


Estas mecânicas já estão muito bem estabelecidas e sedimentadas há anos. 

Criar uma cor nova arriscaria o balanceamento do jogo e deveria levar em conta a retrocompatibilidade (ou seja, deve ser feita de maneira a tornar possível jogar edições antigas usando cartas da cor nova). Acho que é por estes motivos que a Wizards não cria uma 6ª cor de Magic, embora já tenha flertado com a ideia pelo menos uma vez (numa brincadeira de 1º de abril, eu acho, em que lançaram numa revista imagens de cartas roxas).

Com a popularização banalização dos artefatos desde pelo menos a coleção Mirodin, alguém poderia dizer que eles funcionam como uma 6ª cor, pois é possível montar um deck só de artefatos (creio). Mas não acho que haja uma mecânica inerente aos artefatos a não ser a própria variedade de mecânicas em si... tem artefato que gera mana, tem outros que dão dano direto, tem outros que destroem criaturas, e por aí vai. 

Para criar uma 6ª cor inédita, acho que deveriam ser seguidas as seguintes linhas de pensamento:

1 - Ela tem que ter uma mecânica própria que a distingua das demais;

2 - Tem que ser a "inimiga" da cor verde (pois já há os pares Branca (luz) X Preta (trevas) e Azul (água) X Vermelho (fogo), e o Verde aparentemente está isolado, seguindo esta lógica; e

3 - Tem que ser uma cor esteticamente bonita, que fique bem na impressão das cartas (não pode ser uma cor de tonalidade fraca ou que possa ser confundida com outra cor... tem que ser bem distinta)

Agora, para o exercício mental propriamente dito (até fiz exemplos de cartas no paint!), eu consigo imaginar as seguintes opções:

1ª Opção

Cor: Roxo

Terreno: Cidade (em oposição ao terreno do Verde, que é a floresta)




o ícone da bigorna eu tirei deste link: https://www.flaticon.com/free-icon/anvil_1065170?related_id=1065017&origin=search




Mecânica: Destruição de mana (também em oposição ao verde, que costuma gerar mana), magias que afetam terrenos e magias que afetam criaturas (mas sem destruir); criaturas que invocam e/ou criam artefatos  (representando os avanços tecnológicos da cidade)

História no jogo ("Lore"): esta cor seria neutra ou má. Sendo má, representaria a maldade interna e inerente ao ser humano (ao contrário das cartas pretas, que geralmente representam uma maldade externa, provocada por demônios, bruxas, etc.), potencializada pela degeneração trazida pela vida urbana (hedonismo, preguiça, cobiça, etc). Se for neutra, as cartas não vão focar só nas coisas ruins da vida urbana: vão mostrar as vantagens também.

Exemplos de cartas:

  Magias: 

          - Desmatamento (destrói a Floresta-alvo; compre uma carta em seguida)

          - Colonização (captura um terreno do jogador adversário. Ele passa para o seu lado da mesa e passa a gerar mana para você)

     - Revolução Industrial (Pague "X" - coloque em jogo "X" artefatos de seu grimório; embaralhe seu grimório em seguida)

imagem obtida no Openclipart.org


Criaturas: 

           - Funileiro hobbysta (vire esta carta: coloque em jogo 1 ficha de criatura artefato 1/1)

        - Mosqueteiro de repetição (vire esta carta: a criatura alvo recebe um ponto de dano; esta habilidade pode ser usada duas vezes por turno)

         - Ladrão de carroças (quando entra em jogo, escolha uma carta de artefato do jogador adversário e coloque-a no seu campo, como se fosse sua)

Imagem: "The Tinker" - pintura a óleo por Alphonse Legros, 1874


2ª Opção

Cor: Amarelo

Terreno: Deserto (também em oposição ao terreno do Verde, que é a floresta)



O ícone em forma de abutre eu tirei deste link: https://www.flaticon.com/free-icon/vulture_3358050

MecânicaDestruição de mana (também em oposição ao verde, que costuma gerar mana), magias que afetam terrenos e magias que afetam criaturas (mas sem destruir), criaturas resistentes e baratas (representando o estilo de vida frugal e a vitalidade necessários para viver em um deserto), 

História no jogo ("Lore"): o amarelo poderia representar os povos que vivem no deserto, nômades ou não, e também as forças naturais relativas àquele ambiente: sol, calor e frio extremos, tempestades de areia, oásis, etc. além de representar o próprio instinto de sobrevivência diante de condições extremas, i.e, a força da própria vida encontrando um jeito de viver mesmo nas piores condições, e também o lado brutal do fato de que a vida se alimenta de vida e que a natureza é uma força cruel, embora neutra. Por este motivo, creio que o amarelo seria uma facção neutra na história de Magic.

Exemplos de cartas:

  Magias: 

          - Desertificação (destrói o terreno-alvo)

      - Tempestade de Areia (as criaturas do oponente não podem bloquear neste turno)

        - Noite gélida (X criaturas não poderão atacar no próximo turno de seu oponente)

A imagem foi retirada deste link: https://www.wallpaperflare.com/artwork-fantasy-art-digital-art-desert-night-sand-snow-nature-wallpaper-thbhp


 Criaturas:

             - Elefante de Guerra (atropelar, formar bando)

             - Escorpião dourado (vire esta carta: a criatura - alvo recebe -1/-1 até o final do turno)

             - Nômades do deserto

            

Imagem do wikipedia commons

Achei o exercício interessante. Claro que eu não inventei tanta coisa assim: muitos já propuseram o roxo e o amarelo como possíveis cores novas para Magic, e não é incomum vermos os terrenos destas cores sendo Cidades e Desertos. E não duvido que mais alguém já tenha tido a ideia de usar a mecânica de "destruição de mana" em oposição à cor verde. Se algum dia eu tiver outra ideia para novas cores de Magic, eu publico mais um capítulo desta série. 

Até a próxima, aventureiros! Que as brumas não nos alcancem!

Que o Senhor os acompanhe!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O que está acontecendo com as ilustrações de Magic?

 Saudações, aventureiros, ferreiros e taverneiros!

Este post é uma "continuação" do meu anterior sobre ilustrações de RPG, só que neste aqui eu tecerei minhas opiniões e análises especificamente sobre as ilustrações das cartas de Magic, the Gathering.

Antes, duas observações se fazem necessárias:

1) Não sou jogador de Magic (eu jogava quando era criança, mas só em casa, contra meus irmãos - nunca tive vontade de participar de torneios nem nada parecido). Atualmente me vejo mais como um "colecionador de cartas", mais por conta das ilustrações e por causa da nostalgia. Muito raramente jogo hoje em dia. Gosto de jogar principalmente com as cartas brancas e com as vermelhas. Faz anos desde a última vez que comprei cartas de Magic, e não pretendo comprar novamente tão cedo (joguinho de cartas não é prioridade na minha vida).

2) Eu sei que dizem que "gosto não se discute" e etc. etc. mas este é o meu blog e já deixei claro em outros posts que certas coisas são inegociáveis e que nem tudo é relativo. Beleza é uma destas coisas. Há um nível de subjetividade na beleza como um todo e na beleza proveniente da Arte, mas há uma fronteira além da qual uma "obra arte" é indiscutivelmente feia (não que esta fronteira seja fácil de ser determinada). Pode ser que meus argumentos em relação às ilustrações de magic estejam dentro desta fronteira de subjetividade. Porém, tenho certeza de que há casos pontuais em que as ilustrações das cartas são realmente feias e/ou mal feitas.


Dito isto, vamos à minha breve análise das ilustrações das cartas de Magic:


Magic, nas coleções antigas (as coleções pré-blocos: Alfa, Beta, Revisada, Antiquities, Arabian Nights e a Quarta Edição), ainda não sabia que tipo de jogo gostaria de ser (quanto à lore) e tinha estilos de ilustrações bastante variados, com algumas remetendo a antigas pinturas medievais, outras parecendo copiar o estilo dos quadrinhos de super-heróis, e outras que eu classificaria como "cômicas", quase cartunescas.

É só um exemplo... Esta daqui claramente foi feita para ser "cômica"!

carta do "mago broxa", também feita para ser cômica
Carta muito bem desenhada de um cavaleiro com armadura - típico mundo de fantasia medieval.

Outra carta da primeira edição, com a ilustração de um cavaleiro medieval, muito bem desenhada. Dá pra ver que o desenho foi feito à mão. 

A lendária Lótus Negra, carta muito bem desenhada, bonita, e etc. Ela mostra o quão longe pode chegar a febre do colecionismo - um exemplar da lótus negra da 1ª edição de Magic pode custar até 500 mil reais!!



Nesta época, o mundo de fantasia do jogo era essencialmente medieval. As ilustrações eram no geral bonitas - mas claro que havia exceções. Havia cartas feias, havia ilustrações ridículas, etc. Mas no geral, as cartas eram pequenas obras de arte. 

(Por alguma razão, havia muita influência da literatura árabe não somente nas ilustrações, mas no próprio tema das cartas e, consequentemente, as ilustrações. Houve até uma expansão totalmente baseada nas 1001 noites - "Arabian Nights" - que acho que nunca foi lançada no Brasil, e cada carta dessa edição vale uma pequena fortuna hoje em dia, principalmente as que foram banidas)

Carta com ilustração muito boa parecendo um vitral, da coleção Mirage.

Lembre-se desta versão antiga (anos 90) de Angel of Mercy


Posteriormente, quando começaram a criar uma história própria para o mundo de Magic, mais ou menos a partir da 5ª edição, as ilustrações deram uma melhorada. 

Porém, acho que a partir do bloco Tempest, as coisas já se tornaram cada vez mais "futuristas". O mundo de fantasia medieval foi ganhando aspectos pseudo-futuristas, com "máquinas biológicas", provavelmente inspirados pelo estilo das ilustrações bizarras do Hans Rudolf Giger (um artista extremamente perturbado, assim como tantos outros, mas com um "delta" a mais de perturbação)

Monstro biomecânico

Outro monstro biomecânico


Outro monstro biomecânico, com uma pegada lovecraftiana


Versão do início dos anos 2000 de Angel of Mercy (enfrentando monstros biomecânicos)... comparem com a dos anos 90, acima, vejam a diferença.

Mas tudo começou a degringolar, mesmo, acho que de 2010 para cá, em que o estilo da arte das cartas se tornou cada vez "fotorrealista", com todas (ou quase todas) as imagens sendo feitas em softwares cada vez mais sofisticados, e provavelmente baseadas em fotos reais, na medida do possível. 

Estas duas cartas até que não são mal desenhadas, mas são muito "fotorrealistas". Além disso, as figuras principais parecem que foram coladas por cima do fundo, como se não fizessem parte dele (provavelmente foi isso que o artista fez). 


Mas, na minha opinião, isso tem que ter um limite. 

Por exemplo, será que vai ficar legal se um dia as ilustrações das cartas forem literalmente fotos de pessoas, só que com "efeitos de photoshop" para fazer com que elas se pareçam, por exemplo, elfos? 

Será que vai ficar legal se as cartas que realmente representam seres humanos serem simples fotos de pessoas fantasiadas? 

Será que não vai ficar ridículo?

Enfim, para resumir: antes as cartas eram "charmosas" porque as ilustrações eram claramente feitas à mão e no máximo eram coloridas ou finalizadas com softwares. 

Havia muita arte ali, arte tradicional, que exigia muito talento da parte do artista. Algumas delas poderiam ser impressas em tamanho maior e figurar em exposições de arte e poderiam se passar por pinturas feitas na Idade Média ou até no Renascimento, Expressionismo, etc.  Óbvio que há exceções.

Na minha opinião, esta é a mais bela ilustração de Magic

Essa ilustração não é tão bonita, mas tem um charme, lembra o estilo expressionista

Hoje em dia as ilustrações meio que "perderam a alma" porque parecem ser feitas 100% com softwares e são cada vez mais foto-realistas, aproximando-se cada vez mais do que chamam de "uncany valley". 

Elas realmente parecem não ter alma, parecem ser "frias" e sem vida. Jamais conseguiriam se passar por obras de arte caso fossem impressas em tamanho maior e colocadas em exposição. Óbvio que aqui também há exceções.

Não posso garantir, mas essa ilustração me parece que foi 100% feita em algum "photoshop" da vida (e foi inspirada em um personagem de KOF, provavelmente)

Um bárbaro genérico, mas pelo menos parece que foi desenhado "à moda antiga" e só depois finalizado em um software.

Para finalizar e ilustrar um pouco melhor essa noção de "perda de alma" das ilustrações, comparem as imagens abaixo (duas versões da mesma carta):

Esta aqui é a versão antiga, de certa forma "feia", mas com alma: é um dragão único e diferente


Esta aqui é a versão de 2018 da carta acima, mais bonita, porém meio que "sem alma" - é apenas um dragão genérico